Símbolos e notação

A tabela dos glifos astrológicos

Catorze corpos, doze signos, onze aspectos. Cada traço redesenhado no tamanho que você pedir, e de cada um o que de fato se sabe sobre a sua origem.

Um glifo astrológico é uma abreviatura, não um desenho. A maioria dos que você lê aqui são letras gregas contraídas, gastas por quinze séculos de cópia à mão e depois fixadas pela imprensa. Alguns poucos têm autor e data. Só um, o de Quíron, tem menos de cinquenta anos.

Esta página serve a duas coisas. A primeira é prática: cada glifo é um traço vetorial, não é fonte nem imagem, e você pode levá-lo assim como está. A segunda é separar: sobre a origem desses símbolos circula mais folclore do que saber, e aqui mantemos três regimes distintos, o atestado, o conjecturado e o falso.

Traços desenhados a partir do conjunto de glifos de referência do Unicode, que a própria norma declara não prescritivo. As fontes históricas estão nomeadas linha a linha mais abaixo. A biblioteca →

A oficina

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Os catorze corpos

Os sete tradicionais, os três modernos, os dois nodos lunares, Quíron e Lilith. São exatamente aqueles que as nossas rodas sabem posicionar: os quatro asteroides maiores entram, sim, num mapa, mas aqui não têm traço.

Os doze signos

As formas que usamos são as de uso corrente. Várias circularam de outro jeito, e a imprensa do século quinze dá variantes reconhecíveis: está contado mais abaixo, com a folha exata.

Os onze aspectos

Nove têm glifo, dois não têm. O semissextil e o quincunce são o espelho exato um do outro, de cabeça para baixo: trinta graus e cento e cinquenta se respondem, e o pareamento é proposital.

Os onze aspectos
Glifo Aspecto Ângulo Orbe dos trânsitos Unicode Origem do aspecto
Conjunção Maior 0° 8° U+260C CONJUNCTION Tradição ptolomaica
Semissextil Menor 30° 1,5° U+26BA SEMISEXTILE Sem atribuição estabelecida
Semiquadratura Menor 45° 2° U+2220 ANGLE * Sem atribuição estabelecida
Sextil Maior 60° 6° U+26B9 SEXTILE Tradição ptolomaica
Q Quintil Menor 72° 1,5° nenhum ponto de código Kepler, 1619
Quadratura Maior 90° 8° U+25A1 WHITE SQUARE * Tradição ptolomaica
Trígono Maior 120° 8° U+25B3 WHITE UP-POINTING TRIANGLE * Tradição ptolomaica
Sesquiquadratura Menor 135° 2° U+26BC SESQUIQUADRATE Kepler, 1619
bQ Biquintil Menor 144° 1,5° nenhum ponto de código Kepler, 1619
Quincunce Menor 150° 3° U+26BB QUINCUNX Sem atribuição estabelecida
Oposição Maior 180° 8° U+260D OPPOSITION Tradição ptolomaica

O quintil e o biquintil não têm glifo. Escreve-se a letra Q, e bQ ou Q², e o próprio Unicode anota isso. Os únicos caracteres de quintil codificados são variantes explicitamente russas, incorporadas à norma em 2018. Preferimos dizer isso a inventar um desenho e depois ensiná-lo.

* Três glifos tomam emprestada uma forma genérica, e o nome do caractere denuncia: U+2220 é o sinal matemático ANGLE, U+25A1 um quadrado branco, U+25B3 um triângulo branco com a ponta para cima. O caso da semiquadratura merece ser dito com clareza: nenhum ponto de código lhe é dedicado, o Unicode apenas anota U+2220 como usado em contexto astrológico para esse aspecto.

Os glifos do semissextil, do sextil, do quincunce e da sesquiquadratura só entraram no Unicode na versão 5.1, em 2008. É um dado sobre a codificação informática, não sobre a idade dos símbolos: o sextil é muito anterior a 2008. Nos demais casos a versão de entrada não foi verificada, e a tabela prefere calar a mostrar um travessão que você leria como “não codificado”.

O orbe exibido é o dos trânsitos, da sinastria e do mapa composto. O seu mapa natal não usa esses números: ele soma os meios-orbes dos dois corpos envolvidos, o que dá doze graus para o Sol e a Lua e cinco para Urano e Plutão. Publicar aqui um número único sem dizer isso lhe anunciaria um valor que a sua própria leitura não emprega.

Datar um aspecto, datar um glifo

Duas coisas se confundem o tempo todo. Os cinco aspectos ptolomaicos, conjunção, sextil, quadratura, trígono e oposição, são antigos enquanto conceitos. Os glifos deles, porém, não têm nenhuma primeira atestação datável que a pesquisa tenha conseguido estabelecer. Por isso nunca escreveremos que tal símbolo remonta a Ptolomeu: ninguém demonstrou isso.

O quintil, o biquintil e a sesquiquadratura são de Kepler, tirados do pentágono, do decágono e do octógono. Aparecem no Harmonices mundi (Linz, 1619), livro IV, e ele já os trabalhava na carta a David Fabricius de 1 de outubro de 1602. (Linde e Greenbaum, “Kepler on Aspects, 1602”, Culture and Cosmos 14, 2010.)

À semiquadratura costuma-se atribuir o mesmo pai, porque o octógono também dá quarenta e cinco graus. Nós não fazemos isso: a fonte nomeia o quintil, o biquintil e a sesquiquadratura, e mais nada. Nessa linha a tabela diz “sem atribuição estabelecida”, o que quer dizer que não se sabe, e não que o aspecto seja recente.

O que está documentado e o que não está

Uma regra de leitura poupa aqui quase todo o risco: as grandes referências generalistas, enciclopédias on-line e páginas de agências espaciais, são confiáveis sobre qual símbolo se usa hoje e pouco confiáveis sobre de onde ele vem. Manter esses dois papéis separados já basta. Seguem, então, três regimes distintos, com a fonte ao lado.

Atestado

Um nome, uma obra, uma data. O que segue pode ser conferido.

Júpiter e Saturno são letras gregas

O glifo de Júpiter vem de um zeta com traço de abreviatura, por Zeus. João Camatero ainda o mostra como um simples zeta no século doze. O de Saturno vem das duas iniciais capa e rô de Cronos, unidas pelo mesmo traço de abreviatura e reduzidas a uma forma de eta na mesma época. É o mesmo mecanismo nos dois casos: abrevia-se o nome grego do planeta, não se ilustra o deus.

Alexander Jones, Astronomical Papyri from Oxyrhynchus, 1999, p. 62-63; Salmasius, 1629; João Camatero, Compêndio de astrologia, século doze.

As cruzes de Mercúrio e Vênus são um acréscimo tardio

A cruzinha ao pé de Mercúrio e de Vênus nem sempre esteve ali. Falta em Camatero no século doze e está presente no dezesseis. A datação é firme. O motivo do acréscimo não é, e ele está tratado mais abaixo entre as conjecturas.

João Camatero, Compêndio de astrologia, século doze, comparado aos impressos do dezesseis; discussão retomada por W. T. Stearn, Taxon 11/4, 1962.

Marte e Vênus para macho e fêmea: Lineu, 1751

O uso dos dois símbolos planetários para designar os sexos começa com Lineu, na dissertação Plantae hybridae de 1751, e se generaliza com o Species Plantarum de 1753. Nenhuma atestação anterior foi encontrada. A biologia tomou emprestados dois símbolos planetários, e não o contrário.

W. T. Stearn, “The Origin of the Male and Female Symbols of Biology”, Taxon 11/4, 1962.

Urano tem dois símbolos, ambos de 1784

O primeiro é o símbolo da platina, um círculo com ponto encimado por um traço com ponta de flecha, proposto por Köhler e retomado por Bode. O segundo é o monograma de Herschel, um H com um globo suspenso, sugerido por Lalande como “um globo encimado pela primeira letra do seu nome”. Os astrônomos usam o primeiro, os astrólogos o segundo. Vale anotar um alerta: o caractere Unicode U+2645 tem por glifo de referência o monograma, mas leva a anotação “símbolo alquímico da platina”, que descreve a outra forma. Quem escrevesse esta página só pelas anotações erraria.

Símbolo da platina, Köhler e Bode, 1784. Usado pelos astrônomos.
Monograma de Herschel, Lalande, 1784. Usado pelos astrólogos, e por este site.

Johann Köhler e Johann Elert Bode, 1784; Joseph Jérôme de Lalande, 1784.

Plutão tem cinco formas codificadas

A mais conhecida fora da Europa é o monograma P-L, publicado no Observation Circular do observatório Lowell de 1 de maio de 1930: vale ao mesmo tempo por “Plutão” e pelas iniciais de Percival Lowell. As outras quatro formas também estão codificadas. A segunda, um globo dentro de uma lua crescente sobre uma cruz, é a mais difundida no mundo fora da esfera anglo-americana, e é ela que desenhamos. A terceira é usada sobretudo pelos astrólogos de língua francesa, espanhola e italiana; a quarta é de Hermann Lefeldt, escola de Hamburgo, 1946; a quinta domina nos países de língua alemã e na Dinamarca.

Forma dois: globo dentro de uma lua crescente, sobre uma cruz. A mais difundida, e a que este site desenha.
Monograma P-L, observatório Lowell, 1930.

David Faulks, “Astrological Plutos”, documento L2/16-067R, 2016, com trinta e duas amostras datadas e com fonte.

O glifo de Quíron tem autor

Foi criado por Al H. Morrison e difundido a partir de 1978, poucos meses depois da descoberta do corpo. É o único glifo desta página cujo autor e ano se conhecem com menos de um ano de margem.

Al H. Morrison, 1978; caractere U+26B7.

Os signos circularam de outro jeito, e está impresso

A Crônica de Nuremberg, na folha 11 reto, imprime os doze glifos dos signos em formas que você não reconheceria todas: o Câncer deitado, dois ganchos lado a lado e não o “69” em pé; o Sagitário como flecha vertical com travessa; o Aquário em três ziguezagues empilhados; a Libra em duas barras horizontais com um traço vertical; o Capricórnio em forma cursiva com laço; os Peixes em dois arcos que se cruzam. Um ponto a não copiar errado: é um livro impresso, um incunábulo, e não um manuscrito.

Hartmann Schedel, Liber chronicarum, Nuremberg, 1493, folha 11 reto.

Há variantes dentro do próprio Unicode

O glifo de referência de U+264E, Libra, é um arco em forma de ômega sobre uma única barra. O de U+2651, Capricórnio, é a forma cursiva com laço. U+264D, Virgem, leva a anotação “minim, glifo alternativo”, e U+264F, Escorpião, “minim, drop”: essas mesmas formas serviram na notação dos boticários. Essas variantes qualquer um pode conferir, hoje, nas tabelas de códigos da norma.

Tabelas de códigos do Unicode, bloco Miscellaneous Symbols, e as anotações da NamesList.

Com reservas

O que segue é sustentado por gente séria, mas não está estabelecido. Por isso escrevemos quem diz, e não que seja assim.

Mercúrio: dois campos eruditos, nenhum árbitro

De um lado, o glifo seria um caduceu estilizado. De outro, uma contração de Estílbon, o nome grego do planeta, como em Júpiter e Saturno. As duas leituras são defendidas por filólogos sérios e nenhuma venceu. Apresentamos as duas e não escolhemos nenhuma.

Caduceu: Alexander Jones, 1999. Contração: Salmasius, 1629; Renkema; W. T. Stearn, 1962.

Por que uma cruz foi acrescentada

Que as cruzes tenham sido acrescentadas para cristianizar símbolos pagãos é uma sugestão de A. S. D. Maunder, não um resultado. A fórmula certa é “Maunder propôs que”, e não “foram acrescentadas a fim de”. A datação do acréscimo é firme; o motivo dele não é.

A. S. D. Maunder, hipótese; retomada e discutida por W. T. Stearn, Taxon 11/4, 1962.

O Júpiter em forma de 4

A forma moderna de Júpiter parece um 4, e costuma-se explicá-la como um estágio cursivo tardio do zeta. Não encontramos nenhuma fonte que estabeleça isso. A semelhança é um fato; a explicação é um hábito.

Nenhuma fonte encontrada para a explicação cursiva; a origem no zeta, essa sim, é a de Jones, 1999.

O Plutão em bidente

Uma forma em bidente, o atributo do deus, circula e está atestada em Vehlow em 1955. Ainda assim Faulks recusou-se a propô-la para codificação por falta de fontes suficientes. Pode-se, portanto, escrever “também circula uma forma em bidente”; não se pode escrever “os astrólogos geralmente a usam”.

Johannes Vehlow, 1955; David Faulks, L2/16-067R, 2016, que a descarta por falta de fontes.

O que não escrevemos

As afirmações a seguir são as mais difundidas sobre o assunto, e são falsas ou sem apoio. Várias aparecem em sites que no mais são referência. Não vamos repeti-las.

  • Que Marte seja o escudo e a lança do deus, e Vênus o espelho da deusa. É uma leitura de Escalígero, rejeitada de forma explícita: Stearn escreve que provavelmente ninguém mais a aceita, e que todas as provas favorecem a conclusão de Salmasius, isto é, contrações dos nomes gregos dos planetas.
  • Que Marte venha da runa tiwaz, e que um Vênus figure numa tabuinha mesopotâmica. O British Museum estabeleceu que este último caso se apoia na má interpretação, por um desenhista moderno, da sombra de uma fotografia.
  • Que o glifo de Júpiter seja um hieróglifo de águia, ou o de Saturno a foice de Cronos. Os dois confundem o atributo iconográfico do deus com o símbolo escrito do planeta, que é uma abreviatura do seu nome.
  • As etimologias signo por signo: a Virgem a partir de parthenos, o Leão a partir de um lambda, o Câncer a partir de um escaravelho demótico, a Libra a partir do sol poente, a cauda do Escorpião a partir de Marte. Nenhum apoio erudito foi encontrado para nenhuma delas.
  • Que os glifos do zodíaco sejam simplificações renascentistas de representações pictóricas. É plausível e não tem fonte. E o manuscrito Vat. gr. 1291, muitas vezes invocado como autoridade sobre a forma dos glifos, não pôde ser confirmado nesse papel.

Sobre o primeiro ponto: W. T. Stearn, “The Origin of the Male and Female Symbols of Biology”, Taxon 11/4, 1962, p. 112.

O que fazemos com eles

Nunca colocamos o caractere Unicode numa página nem num PDF. Ele vira emoji colorido para metade dos leitores, uma Vênus rosa berrante no meio de uma tabela dourada, e não existe em nenhuma das fontes dos nossos documentos. Todos os glifos do site são traços, desenhados pelo mesmo código que desenha as suas rodas: o que você vê aqui é exatamente o que verá no seu mapa.

Onde duas formas coexistem, usamos uma e dizemos qual. Para Urano, o monograma de Herschel, que é o uso astrológico. Para Plutão, a forma dois, a mais difundida no mundo. São escolhas, não verdades, e estão mostradas lado a lado mais acima para que você julgue em vez de acreditar em nós.

Onde não há forma, não inventamos nenhuma. O quintil e o biquintil saem em letras. As outras três formas codificadas de Plutão não são desenhadas aqui, inclusive a que os astrólogos de língua francesa mais empregam: não a temos com fonte firme o bastante para traçá-la, e um desenho aproximado seria logo copiado como referência.

Veja-os no lugar deles

Esses mesmos traços sustentam a sua roda natal, os seus signos, os seus corpos e os seus aspectos. Seu mapa do céu aparece de graça e se lê sem saber nada desta página.

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